A Espiritualidade do Deserto

Ora et Labora

 

 

    A vida monástica, para muitas pessoas, aparenta ser extraordinária. Na verdade é excepcional, mas justamente por ser vivida de forma profundamente regular, ordinária.

    Há muita confusão, ainda hoje, acerca do entendimento do modo de vida contemplativo e recluso, mesmo entre pessoas ditas esclarecidas, como se este fosse uma forma de fuga do mundo e alienação do trabalho. Já ouvi muitos dizerem “qualquer dia largo tudo e viro monge”, no sentido de expressar insatisfação com seu trabalho e seu cotidiano, como se a vida em um monastério fosse desprovida de qualquer afazer que não a oração e totalmente isolada dos problemas do mundo.
     O monge beneditino Anselm Grun, em seu livro "Morar na casa do Amor", faz justamente uma colocação sobre esse tema da relação entre oração e trabalho - a realização do trabalho a partir da oração -, como Bento descreve em sua Regra e que é uma mensagem importante, especialmente para as pessoas de hoje.

 

“Atualmente, muitas pessoas sentem-se sobrecarregadas pelo trabalho. Em todos os lugares ouvimos queixas sobre o estresse provocado pelo trabalho. Parece que o trabalho aliena as pessoas, esgota-as. Como corrente contrária a essa sobrecarga, muitas pessoas hoje querem sair do mundo do trabalho. Na busca por um estilo de vida alternativo, elas não querem apenas viver com mais simplicidade, mas também trabalhar menos, às vezes tão pouco que nem conseguem ganhar o suficiente para sustentar um estilo de vida simples. Grupos que buscam um aprofundamento espiritual, muitas vezes acreditam que só o conseguirão por meio de uma redução do trabalho.
Bento não vê nenhuma contradição entre trabalho e oração. Ele deixa os monges trabalharem cinco horas diárias no inverno e oito horas diárias no verão, o suficiente para que possam ganhar o próprio sustento. Porém, mais decisivo do que um paralelo equilibrado de oração e trabalho é a ligação interna entre ambos. O trabalho deve ajudar-nos a orar bem e a oração deve ajudar-nos a realizar corretamente nosso trabalho. E, finalmente, o trabalho numa concepção correta deve tornar-se uma oração. O trabalho ajuda-nos a orar. No capítulo sobre os trabalhos manuais, Bento escreve:
'A ociosidade é inimiga da alma. Por isso, em determinados períodos os irmãos devem ocupar-se com trabalhos manuais e em determinadas horas com a leitura sagrada (RB 48,1)."


Fazer de nossa oração um trabalho e de nosso trabalho uma forma de oração. Essa é a lição do mosteiro para todos nós, quer sejamos monges ou leigos inseridos no caos urbano e competitivo do mundo moderno.